Os bichos que os bichos têm

A riqueza da natureza não se encontra na uniformidade e sim na diversidade, que se realiza dinamicamente pela convivência entre as individualidades. Na multiplicidade de formas, texturas, cores, aromas e sons, a natureza se expressa e reconhece a individualidade como o protagonista deste movimento.

Há quem acredite que o confronto, a guerra seja a melhor maneira de se resolver os problemas resultantes da relação entre os diferentes, entre os heterogêneos. O importante é ser homogêneo, parece que o dito tem sido visto como regra, na era da Globalização.

O trato intestinal dos animais é o cenário onde este dito é a todo instante questionado por seus ocupantes ocasionais e por aqueles que nem tão ocasionais assim, como os que compõem a flora intestinal, estabelecem o importante equilíbrio de forças inerente à vida, uma vez que sem eles a funcionalidade intestinal estaria comprometida. Sabemos que os intestinos formam um tubo que junto do estômago, esôfago e a laringe, levam o alimento para ser digerido e transformado em nutrientes que serão absorvidos e o resíduo eliminado. É neste ambiente que se dá uma verdadeira explosão bioquímica pela ação das enzimas digestivas sobre o alimento ingerido; as proteínas, o amido e as gorduras recebem tratamento diferente tornando-se elementos menos complexos e menores para poder serem assim absorvidos. Nele convivem helmintos, protozoários, bactérias, vírus, fungos, que travam constante disputa em busca da vida, ao mesmo tempo em que contribuem para que a ação digestiva se realize. É a essa constante disputa e negociação para a coexistência, que chamamos de equilíbrio dinâmico do trato gastro-intestinal.

Podemos definir o trato gastro-intestinal como um tubo em constante transformação, um ambiente vigorosamente dinâmico e rico pela característica de seu conteúdo biodiversificado, na multiplicidade e complexidade de formas e nas relações que estabelecem entre si e com o animal que o hospeda. É bom lembrar que estamos falando de uma parte externa ao organismo, tudo o que acontece nos intestinos está fora do corpo, apesar de que em alguns momentos essa distância se apresenta tênue, dado o aumento da intimidade entre o meio interno (organismo) e o externo (luz intestinal) provocado pela natureza do dinamismo de suas trocas.

Existe uma conduta amplamente aceita entre criadores e que muitos veterinários estabelecem como rotina para manter os animais livres de endoparasitos: a vermifugação periódica de duas ou três vezes ao ano, independente de um exame parasitológico. Tal atitude é vista como preventiva. A nossa vontade de tudo dominar nos faz acreditar que possamos manter o controle sobre quem os nossos animais recebem como hóspedes. A adoção do “Revolution”, como medicamento é a manifestação não só do desejo do controle, como também da “revolução” que este controle poderia representar.

Uma vez estabelecido o equilíbrio dinâmico no ambiente intestinal, fruto da relação de forças estabelecida pela existência de diferentes formas de vida coexistindo num mesmo espaço, em nome da prevenção se faz uso de um vermífugo com espectro de ação amplo e administrado, de forma sistemática e periódica, com o poder de destruição inespecífico. Morrem alguns e outros sobrevivem, o estado de equilíbrio conseguido ao longo deste período se desfaz, promovendo uma nova mudança ou transformação na composição de forças na dita fauna intestinal. Um momento peculiarmente delicado se estabelece onde a atenção biodinâmica do organismo se localiza neste nível.

Fica a pergunta: qual o objetivo de uma vermifugação programada? Ora uma modificação neste nível gera um esforço biodinâmico e uma alteração na biodiversidade, que somado a outras tantas intervenções provocadas pela nossa proximidade com os animais, pode por em cheque o equilíbrio do todo. Observe-se que não estamos tratando aqui de uma infestação e sim da presença de um parasito a nível intestinal. O uso regular e periódico de uma determinada substância (vermífugo) com amplo poder destrutivo que visa à destruição de hospedeiros sem que exista a certeza do prejuízo desta presença. Visitante individualizado, se tem como optar pela melhor conduta em cada caso particular, pois sabendo quem, se sabe qual o ciclo que o nosso hóspede realiza, mensura-se assim a dimensão da agressão ou do simples conflito e seu comprometimento para com o todo. Devemos nos permitir este questionamento: o que é melhor para o animal neste momento? Matar seu hóspede? Será que sua presença caracteriza o estado de enfermidade? A doença é a vulnerabilidade, é a condição para a transformação da simples presença de um endoparasito em uma infestação, com todas as suas complicações e desdobramentos, pois ao avaliar que os hábitos de nossos amigos estão longe daquilo que entendemos como higiênico pode-se concluir: animal sem verme não existe. Ao fuçar o chão, nossos amigos reconhecem seus pares, determinam os limites para expressão de sua individualidade. Neste momento temos que voltar a lembrar da natureza do ser em questão, seus hábitos, muitos deles ancestrais, transmitidos por gerações e norteados pela potencialidade de sua individualidade vital em direção aos fins de sua existência, ou seja, sua meta biológica. Para o cumprimento deste objetivo, a natureza prepara cada ser de forma individual dotando-os de um sistema de autoproteção, denominado por Hipócrates de ”vix naturae medicatrix”, pois particular será seu objetivo na vida, sendo assim, singular serão as formas de relações que o mesmo irá estabelecer.

Sérgio De-Filippi